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| "O COLAR": SOPHIA DE MELLO BREYNER POR LUÍS MIGUEL CINTRA ESTREIA-SE EM LISBOA |
| 14/03/2002 | Teatro |
A POESIA QUE FAZ-DE-CONTA QUE É TEATRO
"Não sei se "O Colar" é mesmo uma peça de teatro. Tanta é a leveza, tão transparentes e fugidias as personagens, tão frágil a estrutura dramática, tão previsível o esboço de intriga, que nada do pesado aparato do teatro parece que chega a estar ali. Mas está a poesia de Sophia, os seus temas, a sua limpidez, o seu saber. A poesia aqui está a brincar, resolveu mascarar-se. E fingiu que era teatro."
As palavras são de Luís Miguel Cintra. Como sempre, como acontece a cada novo espectáculo do Teatro da Cornucópia, o actor e encenador escreve um texto sobre a peça levada à cena, mas desta vez a peça é especial. "O Colar" é um texto original escrito para aquele colectivo de teatro por Sophia de Mello Breyner Andresen. A estreia aconteceu no Porto, mas a partir de quinta-feira, dia 14 de Março, pode ser visto no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa. O NetParque assistiu ao ensaio geral.
"O Colar" é uma peça em que a fantasia entra pela realidade. São momentos pontuais e breves, mas que caracterizam a personalidade da personagem principal, Vanina. Os corações partidos, quando evocados num suspiro romântico ou simplesmente emotivo, não são metáforas ou figuras de estilo, são efectivamente corações partidos. Do mesmo modo que podemos imaginar o acto de engolir o choro que a personagem principal, Vanina (interpretada por Rita Durão), é aconselhada a fazer.
É uma história que se vai desfiando, com a mestria de quem contrói " como o escultor ou pintor " personagens e respectivo contexto em que estão envolvidas, ao ponto de se estabelecer, num crescendo, uma relação de afectividade em particular com Vanina, a personagem mais completa e deliciosa da obra.
Ao nível de um Ibsen, com o mesmo detalhe de quem constrói castelos de areia no ar, evocam-se doces inocências infantis e, no entanto, apelam-se a sentidos adultos. Vanina é sonhadora, apaixonada, vulnerável e decidida, orgulhosa e caprichosa.
Quando está triste, diz Vanina, põe-se a ouvir a música dos anjos. Quando isso acontece, o público fica suspenso numa imagem de fantasia e transcendência. É quando duas guitarras em cena - interpretadas por Fernando Guiomar e Vasco Abranches - fazem ouvir um dedilhar que sugere uma nova apropriação da música da twilight zone. Já se sabe, a imaginação voa para onde apenas a lua habita. A cabeça de Vanina foge, com o seu coração partido em sete pedaços, para aquela esfera do subtil imaginário irreal onde se descompõe nas alturas e ouve a música dos anjos.
Há imagens muito belas ao nível do cenário, que fazem uso desse dom raro da simplicidade. Cenário de parede de fundo e chão em tons de azul, como se o céu e o mar se cruzassem na calmia de um manto de água sereno, pelo menos no início da peça. Espaço cénico que, pelos poucos objectos colocados em palco " uma secretário, um espelho, uma cómoda... " nos localizam no quarto da delicada Vanina, de uma delicadeza que se mascara de fragilidade e nos momentos inesperados revela uma força interior, também ela vestida, na primeira parte da peça, de tons azuis.
A simplicidade das soluções cénicas evidenciam os rigores do texto de Sophia de Mello Breyner, que se tornam translúcidos quando, na segunda parte, já passada a porta do quarto de Vanina e caída e noite, o público é transportado para o palácio do Comendador Zorzi, onde decorrerá um jantar.
Por cima da mesa encontra-se um espelho oval que contribui grandemente para a caracterização da atmosfera e comprova que é uma peça tecida do pormenor, do detalhe, que dá cor à poesia das palavras escolhidas que desenham a sensibilidade da autora. Olhados na sua presença física à mesa, decorre uma refeição comum. Olhados no seu reflexo no espelho, tudo se torna claro. A disposição da louça, o que significa cada gesto, cada ironia, a tensão que se vai impondo, e também toda a caracterização social daquelas personagens, o que contribui igualmente para a caracterização psicológica.
Na verdade, o resumo da história " se lhe extrairmos os pormenores " talvez não seja o mais importante. É uma história de amor impossível, de uma Vanina, menina orfã que tem um tio por tutor, o qual a prometeu em casamento a um Comendador com idade para ser seu pai. Mas Vanina está apaixonada por um rapaz jovem, belo, e cantor que encanta todas as raparigas de Veneza, onde a acção decorre.
O maravilhoso da história são os contornos de cada momento da acção, todas as pequenas pérolas que vão compondo a narrativa poética, e a solução que evita o final óbvio. Aqui, como escreve Luis Miguel Cintra, "sem quase se dar por isso, o que se joga neste pequeno teatro são os mesmos grandes temas de toda a sua poesia", a poesia de Sophia de Mello Breyner.
"O Colar" é uma peça sobre a aprendizagem da vida, da perda da inocência, num percurso que Vanina " como a mais recente grande personagem feminina inventada no universo literário " partilha, num acto de cumplicidade, com o público. E a poesia que se sente e se pressente, porque muita surge subtilmente, está lá sem quase se dar por ela, mas torna-se presença física quando Lord Byron surge em palco " interpretado por Luís Miguel Cintra " como personagem da história.
Vanina, escreve ainda Luís Miguel Cintra, "que apostaríamos ser dupla, ou espelho, ou máscara da própria Sophia neste jogo, nesta breve fantasia", surge aqui ao lado de "personagens que tanto saem das memóriaas de infância, como da commedia dell"arte, como dos teatros de marionetas, como de todas as convenções, e fala da vida. Da vida toda, ao de leve, como se de nada se tratasse, com aquela elegância que só sabe ter a muita arte ou uma sabedoria já de muita vida feita."
"O Colar" surgiu também em livro, numa edição da Caminho. Quanto à peça, tem encenação de Luís Miguel Cintra, cenários e figurinos de Cristina Reis e música de Carlos Marecos. O elenco é composto por Rita Durão (Vanina), João Lisardo (Pietro Alvisi), Luís Miguel Cintra (Lord Byron) e ainda Glicínia Quartin, Cândido Ferreira, José Manuel Mendes, Márcia Breia, Miguel Melo, Roberto Candeias, Sam Petro Dikota, Sofia Marques e Solange F.
"O Colar" pode ser visto de 14 de Março a 21 de Abril, no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, de terça a sábado, às 21h30, e aos domingos, às 16h00.
Texto: Claudia Galhós
Fotos: Abílio Leitão
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