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17/12/2001 | Dança

A Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo " dirigida artisticamente por Vasco Wallenkamp e Graça Barroso " apresenta de 18 a 23 de Dezembro, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, um programa de dança pensado para esta época natalícia.

Quatro coreografias compõem este programa: "Zin!" de Nils Christe, "Capricho" de Tindaro Silvano, "Cenas Infantis" de Rita Judas e "Concerto" de Vasco Wellenkamp. Este foi o pretexto para a conversa com Wellenkamp, numa entrevista que recorda mais de quarenta anos de carreira.

Recorda-se das circunstâncias em que iniciou a sua relação com a dança?

Recordo-me muito bem. As circunstâncias eram completamente diferentes do que são hoje. Havia de facto a companhia Verde Gaio e nada mais. Havia umas professoras que davam aulas, entre elas a professora Margarida de Abreu, que tinham o Círculo de Iniciação Coreográfica. Eu entrei para esse núcleo. Comecei a fazer aulas com a Margarida de Abreu um mês antes de ela ser convidada para dirigir o Verde Gaio, no S. Carlos. Na altura, era muito difícil encontrar rapazes para a dança. Havia, por isso, a absorção dos rapazes que as pessoas achavam que tinham talento, ou que gostavam.

Havia, portanto, uma facilidade para os rapazes de entrarem na dança porque eram poucos?

Poucos ou quase nenhuns. E eu fui contratado para o Verde Gaio, uma companhia profissional, apenas com um mês de dança. Não sabia ainda onde estava, onde tinha caído. Eu próprio fui lá parar porque tinha uma namorada que fazia ballet. Eu ia vê-la, ia ver as aulas, e comecei a ficar apaixonado e encantado por aquele ambiente. Durante um tempo nem sequer tive coragem de falar nisso e quando finalmente tive coragem foi muito rápido. Comecei a fazer aulas e a gostar de fazer aulas.

O que havia de dança nessa altura?

Havia muito poucos espectáculos para se ver e quando comecei a fazer dança a sério comecei a ficar apaixonado. A oportunidade surgiu também para eu fazer uma carreira na dança porque a Margarida de Abreu convidou-me nessa altura para fazer parte do novo Verde Gaio. Tive a sorte de ter professores fantásticos, que foram muito bons professores de dança.

Mas o que é que o ligava desse modo apaixonado à dança?

Na dança fascinava-me tudo. Eu penso que na dança há uma primeira paixão que se estabelece que é simplesmente do prazer da própria dança, o prazer de a ver e de a fazer, depois há uma cultura que se desenvolve naturalmente. Eu tive de experimentar estas descobertas duplas em simultâneo. Tive de fazer aquilo que os bailarinos hoje fazem na escola dentro de uma companhia profissional, que é a educação, os conhecimentos que se vão tendo.

A cultura que se vai tendo, fi-la toda dentro do próprio espaço profissional e fui naturalmente muito influenciado pelas coisas que via no S. Carlos, pelas óperas, pelos próprios coreógrafos que vinham, pelo Fernando de Lima, pela Margarida Abreu, pela Águeda Sena, que foi uma mulher que me influenciou imenso, porque era uma pessoa com uma riqueza muito grande, uma pessoa com um talento fora do tempo. Ela foi uma coreógrafa portuguesa que chegou cedo demais, porque era uma mulher que tinha ideias naquela altura. Nos anos 60 ela fazia coisas que muita da nova dança e da dança moderna fizeram mais tarde, do género da Pina Bausch, mas penso que foi muito incompreendida na altura.

Como era o Verde Gaio nessa altura?

O repertório que nós fazíamos nessa altura era um pouco ambíguo. Vinha da ideia de se fazer algo relacionado com as raízes portugueses, a ideia de se fazer um repertório português e nacional. Era um repertório que tocava nos temas portugueses, que tocava no folclore português mas associado à dança clássica. Um pouco na influência do que era a dança espanhola, que tinha a dança clássica por trás mas depois tem todo um carácter personalizado. Tentou fazer-se isso, o que foi um erro, mas mesmo assim havia algumas obras, tanto do Francisco Graça como da Margarida de Abreu como do Fernando Lima. Eram obras com valor cénico em si, mas penso que, de facto, havia uma certa ambiguidade e havia um equívoco na forma de abordar um repertório por uma companhia que não se percebia se era clássica, se era uma companhia de autores" Havia ali uma certa confusão, mas que se definia com o tempo.

O que tinha de muito bom é que baseava o seu trabalho fundamentalmente naquilo que era a tradição da dança clássica. Portanto, teve o mérito pelo menos de formar uma equipa de profissionais, que eram bons profissionais, com todos os handicaps que se tem numa altura em que o país está tão fechado, tão isolado e tão pobre. A dança não era uma arte reconhecida de todo. Ainda hoje não é uma arte reconhecida, tanto quanto devia ser.

Fotos: Pedro Santa-Bárara
Texto: Claudia Galhós

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